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Os desafios da quarentena, pensar o global e revisar o local.

   Todos desejam um espaço de diálogo e, fazendo uma metáfora com o mar, desejamos um ambiente seguro com ondas controladas.

   Nas relações entre síndicos e moradores precisamos refletir que para termos nosso espaço, preciso estar com o tanque cheio. Tanque do diálogo e da compaixão.

   Como o sindico pode “fazer”?

   O síndico recebe regras estabelecidas e fundadas na orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que determinou o afastamento social. O Condômino deseja ter espaços e flexibilidade para utilizar as áreas  comuns.

   Como organizar estas ideias utilizando a comunicação não violenta?

   “Alguns de nós pagam o condômino para evitar a punição. Outros pagam porque entendem que reza num contrato esta regra. Já cuidar do ambiente comum ou respeitar o vizinho, não é da “conta” do síndico?

   O Condômino lembra das regras quando ele deseja denunciar o outro morador ou quando ele quer atenção para seus incômodos?

    Neste período de pandemia, muitas pessoas estão em seus lares e suas necessidades de lazer e autonomia não estão sendo atendidas. No entanto, a nossa mente não é capaz de não diferenciar o que é real do imaginário. No imaginário cada um compreende o sentido de suas ações baseadas em suas crenças, valores e até em ideologias. Já a realidade, quanto ao Coronavírus, está estampada nos noticiários e nas estatísticas.

É uma linha tênue e os pensamentos estão as voltas do que fazer para controlar a letargia, home office, conflitos familiares e as determinações que são apresentadas pelo síndico.
O dilema está instalado, o síndico deve atuar no local ou no global?
Vamos iniciar nossa reflexão através desta história:
A boneca de sal
Era uma vez uma boneca de sal. Após peregrinar por terras áridas, descobriu o mar e não conseguiu compreendê-lo. Perguntou ao mar: “Quem é você? ”
E o mar respondeu: “Sou o mar. ”
“Mas o que é o mar? ”
E o mar respondeu: “O mar sou eu. ”
“Não entendo”, disse a boneca de sal, “mas gostaria muito de entender. Como faço?”
O mar respondeu: “Encoste em mim. ”
Então, a boneca de sal timidamente encostou no mar com as pontas dos dedos do pé. Sentiu que começava a entender, mas também sentiu que acabara de perder o pé, dissolvido na água.
“Mar, o que você fez? ”
E o mar respondeu:
“Eu te dei um pouco de entendimento e você me deu um pouco de você. Para entender tudo, é necessário dar tudo. ”
Ansiosa pelo conhecimento, mas também com medo, a boneca de sal começou a entrar no mar. Quanto mais entrava e quanto mais se dissolvia, mais compreendia a enormidade do mar e da natureza, mas ainda faltava alguma coisa:
“Afinal, o que é o mar? ”
Então, foi coberta por uma onda. Em seu último momento de consciência individual, antes de diluir-se completamente na água, a boneca ainda conseguiu dizer:
“O mar… o mar sou eu! ”
”Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele”.

Carl Rogers

   A empatia é uma prática que pode auxiliar não só na criação de novos combinados, como é também uma forma de aumentar a probabilidade de que haja colaboração nas interações. A empatia é um termo amplamente utilizado no ambiente organizacional e, por isso, é preciso cuidado. Se acharmos que a empatia implica em concordar com o que o outro diz ou é sobre tomar total responsabilidade pelo o que a outra pessoa está precisando, se torna muito difícil ser empático. Empatia tem a ver com entender não só o que está acontecendo, mas também quais são as motivações da pessoa naquela situação. Ter em mente as perguntas: “o que a pessoa quer cuidar agora? ” e “o que eu quero cuidar agora? ” É se permitir entrar nessa qualidade de conexão e empatia e seguir para outra pergunta poderosa: “como podemos cuidar disso juntos? ” Não tem certo e errado. Não é um duelo entre síndico e morador, afinal o período em estamos, nos adaptando à pandemia, é tenso para todos.

   Neste período é possível desligar o botão automático em que vivíamos e fazer com que esse caminho seja leve, simples e efetivo. A Comunicação Não-Violenta pode nos apoiar na construção desse caminho nesse momento tão atípico e histórico.

   A CNV- Comunicação não violenta traz uma abordagem para aprimorar as relações humanas para obtermos a tão sonhada conexão, empatia e a compaixão. É comum que as pessoas digam que é uma ferramenta de comunicação, mas ela é muito mais do que isso, é transformar as lentes através da quais a gente enxerga o mundo. A educação e o diálogo, que antes foram induzidos através do medo, da culpa, vergonha, das multas e punições, hoje precisam ser revisitados. A ideia é trazer colaboração, inclusão, e entrar em contato com os nossos sentimentos, por isso é uma mudança na forma de comunicar. Dar voz ao condômino e ao síndico também.

   E ainda a CNV nos permite expressar nossa honestidade, de forma que a verdadeira intenção do que dizemos chegue até a outra pessoa. Ela também nos dá a capacidade de receber o que a outra pessoa diz sem que isso nos machuque, escutando o que é importante para ela e qual motivação está por trás da sua fala.

    E pensado nas necessidades humanas universais, que neste período de pandemia estão mais latentes, isso quer dizer pensar nas necessidades universais. Sendo assim, podemos nomear algumas necessidades comum a todos, que são os cuidados com o nosso corpo físico, segurança que incluem acessórios de proteção, e da mesma forma cito os ingredientes emocionais e espirituais.

   Se todos nós temos algumas necessidades e pensamentos semelhantes como podemos nos unir e organizar nossos ruídos internos, podemos pensar que há culpados ou inocentes na relação entre síndicos e nem moradores?
Ou o culpado é o Coronavírus?

   Como fazer com que a mensagem seja escutada na energia em que foi entregue? O segredo para que a nossa intenção chegue quando nos comunicamos, muitas vezes, está na forma como falamos ou nos expressamos.

   Por exemplo, a portaria tem que ser segura, a área de lazer tem que ser limpa, os elevadores devem ser higienizados, e o síndico precisa pedir para que os condôminos cuidem da porta do seu apartamento e dos seus filhos. É justo ou não?

   Então, com a intenção de se conectar melhor com todos, de criar um espaço mais relaxado, é proposto a troca no mundo das ideias e não no mundo dos julgamentos. Porém, no mesmo movimento, a pessoa pode imaginar “Nossa, o síndico quer que eu fique em casa e ainda cobra que eu não desça na área de lazer, sendo que eu pago o condomínio. Será que ele está me privando do meu direito de ir e vir?

   Qual a fumaça que está surgindo na mente deste morador? Estes pensamentos podem se transformar num incêndio ou há a possibilidade de comunicar, de forma intrapessoal de outra forma?

   A forma, no caso desse exemplo, poderia ser com um pedido direto ao síndico, sobre o que o morador acha que poderia trazer mais conforto e segurança para ele próprio e para todos do condomínio?

   Algo que traga um efeito contrário a simples aplicação de das multas, como um debate de ideias. Ser um sal no mar, internando-se com a necessidade de ambos. Seria mais efetivo, antes mesmo de fazer os pedidos ou propostas, entender, checar e se conectar mais intensamente com o outro. Mais conexão antes de trazer propostas e fazer pedidos. Essa conexão pode aparecer simplesmente compartilhando o que queremos cuidar ao trazer aquele pedido. Ao iniciar uma conversa, o síndico pode contar sobre a vontade de conectar dizendo, numa reunião: “Olá pessoal, adoraria aproveitar esse momento que estamos juntos para me conectar um pouco mais com vocês. Estou aqui e quero contar que desejo olhar pela segurança de todos, e ver nossos sorrisos saudáveis poderá apoiar nessa interação. Podemos todos evitar os espaços comuns, como aérea de lazer, corredores, guarita? ”. E é também muito importante checar como o que você está pedindo é recebido pela outra pessoa. Uma forma simples de fazer isso é perguntar: “Como é para você este período, senhores e senhoras? 

”Até mesmo por mensagem de texto é possível fazer essa checagem, transformando algumas frases que temos o costume de usar. Por exemplo, quando mandamos a mensagem, normalmente dizemos: “você pode retirar o seu filho do parquinho? A pessoa que recebe a mensagem pode interpretar como uma cobrança e que eles não são pais relapsos. A conexão pode vir de uma simples mudança na mensagem, contando um pouco de como você está elaborando para a organização dos espaços. E o senhor gostaria de conhecer? Como seria para você? ” Assim, trazemos algumas palavras a mais que contam a intenção que está por trás daquilo que gostaríamos de contar. Estar atento à tendência da nossa mente de contar histórias pode ajudar a incorporar alguns cuidados na hora de nos comunicar.

Uma forma simples para iniciar esse movimento de conexão, entre os moradores como moradores, síndicos com moradores, enfim com as pessoas que convivem no mesmo espaço, é perguntando como as pessoas estão simplesmente trazendo mais qualidade para essa pergunta. Quando perguntamos: “Como você está? ” A resposta comum é “tudo bem”. Isso acontece porque já temos padrões de perguntas e respostas que simplificam a interação e facilitam conversas formais. Uma conexão de qualidade pede interesse e perguntas que levem a um nível mais profundo de interação, como por exemplo “Como está sendo para você trabalhar de casa nesse período? ”, “E aí, como está a organização da sua família? Seu parceiro e filhos estão em casa? Conta um pouco mais. ”, “Como está o gerenciamento da agenda, parece que você está trabalhando um pouco mais do que gostaria? ” “Como está sendo para lidar com a ansiedade com toda essa mudança de ambiente? ”

A ideia é criar perguntas para que as respostas sejam mais profundas do que um simples “está tudo bem”. Trazer a intenção da conexão e cuidado na sua fala ajuda a criar a confiança necessária com quem você trabalha. As respostas para essas perguntas podem ser surpreendentes e trazer elementos importantes sobre conviver em um condomínio.

Podemos utilizar os elementos da Comunicação Não-Violenta, para, antes da exigência, coerção, sugerir um novo combinado. Um exemplo seria: “Estou percebendo que o senhor fechou três lugares que antes meus filhos brincavam na área de lazer e eu estou ficando nervoso, pensando que talvez eu não consiga ficar com as crianças dentro do apartamento como foi anunciado. Para cuidar do nosso combinado e da qualidade das novas regras do condomínio, podemos recombinar um local para eu descer com o meu filho? ” Sabendo que qualquer recombinação pode gerar impactos, precisamos também nos atentar a eles e abrir espaço para conversar sobre eles, buscando caminhos para minimizá-los. Uma forma de cuidar disso é perguntando: “Quais são os impactos que essa mudança causaria para o condomínio? Como podemos minimizar esses impactos? ” Isso também é CNV: quanto mais claros formos em relação ao que é importante para nós (inclusive o cuidado com os impactos), mais provável se torna que o outro queira colaborar com nosso pedido. Nos encontramos no lugar onde queremos cuidar do trabalho e da relação juntos. Muitas vezes as pessoas precisam de escuta, e o momento é tão tenso que cada um está pensando só na sua paz específica e não no âmbito geral.

A Comunicação Não-Violenta tem mais a ver com o nível de conexão com o qual falamos, demonstrando à outra pessoa que estamos compreendo o que ela traz. Em uma conversa onde os ânimos estão exaltados, a primeira coisa que devemos fazer é checar se há espaço interno suficiente para entrar na qualidade de presença e escuta necessária para então se perguntar: “O que será que essa pessoa está querendo cuidar? O que é tão importante para ela nesta situação que contribui para que ela esteja tão emocionada? ”

O contraponto não é deixar de falar. É escolher quando e como falar, usando palavras que expressem de forma assertiva o que você está observando e, ao mesmo tempo, contemple o cuidado e o interesse para a compreensão dos desafios que possam estar presentes naquela situação, partindo da intenção de cuidar. Um ponto que a Comunicação Não-Violenta traz de maneira muito sensível para apoiar na efetividade da comunicação é o choque de realidade.

Como poderíamos usar a Comunicação Não-Violenta, para acalmar essa conversa? De maneira simplificada, falar a partir da Comunicação Não-Violenta não quer dizer ser doce ou calmo o tempo inteiro.
Eu posso levar a comunicação não violenta para o seu condomínio, através das práticas com crianças, adolescentes, adultos. Não trabalho no formato de palestra e sim com muita conexão, caso a caso. Escuta e proposta legítima de fala.

Autor: Arlete Aquino Dal Pino

Psicopedagoga clínica, já atendeu centenas de jovens, adultos e casais, psicopedagoga institucional com experiência de mais de 29 anos nas funções de direção, coordenação e orientação de escolas, psicopedagoga da equipe que dirigiu o Projeto REENGE / ITA (Reengenharia do ensino de engenharia do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, coach de crescimento pessoal com formação no (IBC) Instituto Brasileiro de Coaching, palestrante, empresa e YouTuber @mãe girafa, âncora do programa @prosa criativa Web radio @vivência espirita, facilitadora da CNV. Contatos: WhatsApp (Oi) 12 99167-7663

E-mail: Arlete.psicopedagoga@gmail.com